domingo, 19 de dezembro de 2010

A Depressão e seus estados.





Sem sombra de dúvida, podemos afirmar que na atualidade, que os quadros clínicos de depressão vêm mostrando significativo crescimento na prática analítica. No entanto devemos ressaltar alguns fatos bem importantes sobre os tratamentos, tipos de estados depressivos e equívocos decorrentes de atendimentos precipitados. Para tal justificativa vou me amparar em dados estatísticos para balizar de maneira séria e honesta alguns dados que trago a seguir.
1.Entre as dez mais importantes doenças incapacitante de indivíduos, cinco são emocionais, dentre elas a depressão: é a primeira delas.
2. 50% (cerca de) de médicos não psiquiatras ou psicanalistas não diagnosticam ou se o fazem cometem equívocos importantes e prejudiciais usando benzodiazepínicos ou antidepressivos em dosagens erradas.
3.O números de estados depressivos está aumentando.
David Zimerman psiquiatra e psicanalista afirma: “virtualmente, em todos os quadros de patologia mental existe subjacente, alguma forma de estado depressivo”
4. É grande o número de “depressões subclínicas”, melhor dizendo estados depressivos que não se mostram ou se manifestam de forma evidente e sim por traços inaparentes, como por um estado de continuada apatia, ou vir a se revelar por hipocondria, alcoolismo, transtornos alimentares, etc. Segundo Zimerman podemos classificar:

Tipos:
a) Atípica: mais conhecida com os nomes de “depressão neurótica” ou “depressão reativa”. Seu perfil é único e resulta de alguma forma de crise existencial, por razões predominantemente internas ou externas. Habitualmente não respondem bem à medicação.
b) Endógena: resulta de causas orgânicas e manifesta-se com sintomatologia mais típica, adquirindo características “unipolares” (os sintomas são unicamente depressivos) ou “bipolares” (os sintomas tanto podem ser da esfera depressiva ou, em um pólo oposto, de natureza “maníaca”). Apesar de serem endógenas, comumente elas podem ser desencadeadas por fatores ambientais, se assemelhado qualitativamente à depressão atípica. Costuma responder bastante bem à moderna medicação antidepressiva, quando adequadamente ministrada e, principalmente, quando acompanhada de alguma forma de terapia de base analítica.
c) Distímica: esta denominação corresponde à depressão que comumente é de chamadas de “crônica”.






Principais Causas da Depressão
A) Depressão anaclítica: resulta de um primitivo “vazio de mãe”.
B) Identificação com o objeto perdido: corresponde ao clássico aforismo de Freud – “a sombra do objeto recai sobre o ego” - , com um luto mal-elaborado desse objeto, de maneira que propicia a instalação de quadros “melancólicos”.
d) Depressão por perdas; tanto de objetos importantes – especialmente quando foram perdas prematuras, traumáticas e significativas – como também de partes do ego, tal como acontece nas “depressões involutivas”, quando o sujeito que está entrando em idade mais avançada sente estar perdendo o vigor físico, a concentração, a memória, etc.
e) Depressão por culpas; neste caso, a depressão é determinada pela ação punitiva de um superego tirânico, aquilo que também chamamos de uma autocrítica punitiva.
f) Identificações patógenas: em especial aquelas que, particularmente, tenho proposto a denominação de “identificação com a vítima”.
g) Ruptura com os papéis designados: a depressão provém da ação de um “ego ideal” – que obriga o sujeito a corresponder os inalcançáveis ideais que o seu narcisismo original exige – bem como de um “ideal de Ego”, que resulta das expectativas grandiosas que os pais e o ambiente circundante depositaram no sujeito, desde bebezinho, atribuindo-lhe papéis que ele deverá executar pelo resto da vida, caso contrário, despertam nele uma sensação de traição, vergonha e humilhação.
h) Depressão decorrente do fracasso narcisista: Muito freqüente; estado decorrente de algum tipo de fracasso que o sujeito fortemente fixado naquilo que chamamos de “posição narcisista”, sofre diante de enormes demandas de obtenção de êxitos sucessivos, como dinheiro, poder, prestígio.
i) Pseudodepressões: Como no tipo de pessoa que atravessa uma vida inteira aparentando desvalia e pobreza que não correspondem a sua realidade. Comporta-se desta maneira por motivos como: medo de atrair a inveja retaliadora; medo de provocar tristeza naqueles que o invejarem; medo de se tornar a partir do olhar do outro uma fonte inesgotável de provimento e satisfação de necessidades; uma forma de parecer ser um sofredor, que para ele representaria um merecimento do amor do outro.

Sobre o tratamento:

Em todas as situações descritas e motivos de estados depressivos, cabe lembrar que não são necessariamente situações ou motivos estanques, rígidos, ou únicos. O sujeito pode apresentar motivos em algumas situações concomitantes. A Indicação para tanto é a psicoterapia e não cabe também discutir a eficácia dos antidepressivos. Mas chamamos a atenção para o uso indiscriminado e uso equivocado dos benzodiazepínicos, aquilo que chamamos de “medicalização” . Evidente que o uso de antidepressivos é importante e não exclui a psicoterapia. Consenso é em casos mais graves e importantes o uso combinado e adequado da psicoterapia e dos antidepressivos. Lembrando dados estatísticos do FDA dos Estados Unidos: entre 100 suicidas nos deste país, 80 usavam somente antidepressivos (dados de 2007).

Bullying : Um Sintoma Social e Familiar.



Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas, verbais ou físicas, intencionais e repetitivas, que ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos, causando dor e angústia, com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa sem ter a possibilidade ou capacidade de se defender, sendo realizadas dentro de uma relação desigual de forças ou poder.
O bullying se divide em duas categorias: a) bullying direto, que é a forma mais comum entre os agressores masculinos e b) bullying indireto, sendo essa a forma mais comum entre mulheres e crianças, tendo como característica o isolamento social da vítima. Em geral, a vítima teme o(a) agressor(a) em razão das ameaças ou mesmo a concretização da violência, física ou sexual, ou a perda dos meios de subsistência.
O bullying é um problema mundial, podendo ocorrer em praticamente qualquer contexto no qual as pessoas interajam, tais como escola, faculdade/universidade, família, mas pode ocorrer também no local de trabalho e entre vizinhos. Há uma tendência de as escolas não admitirem a ocorrência do bullying entre seus alunos; ou desconhecem o problema ou se negam a enfrentá-lo. Esse tipo de agressão geralmente ocorre em áreas onde a presença ou supervisão de pessoas adultas é mínima ou inexistente. Estão inclusos no bullying os apelidos pejorativos criados para humilhar os colegas.


As pessoas que testemunham o bullying, na grande maioria, alunos, convivem com a violência e se silenciam em razão de temerem se tornar as “próximas vítimas” do agressor. No espaço escolar, quando não ocorre uma efetiva intervenção contra o bullying, o ambiente fica contaminado e os alunos, sem exceção, são afetados negativamente, experimentando sentimentos de medo e ansiedade.
As crianças ou adolescentes que sofrem bullying podem se tornar adultos com sentimentos negativos e baixa autoestima. Tendem a adquirir sérios problemas de relacionamento, podendo, inclusive, contrair comportamento agressivo. Em casos extremos, a vítima poderá tentar ou cometer suicídio.
O(s) autor(es) das agressões geralmente são pessoas que têm pouca empatia, pertencentes à famílias desestruturadas, em que o relacionamento afetivo entre seus membros tende a ser escasso ou precário.Há de se dizer que no que se refere a escola as crianças ou adolescentes tendem a replicar o comportamento familiar. Por outro lado, o alvo dos agressores geralmente são pessoas pouco sociáveis, com baixa capacidade de reação ou de fazer cessar os atos prejudiciais contra si e possuem forte sentimento de insegurança, o que os impede de solicitar ajuda.
No Brasil, uma pesquisa realizada em 2010 com alunos de escolas públicas e particulares revelou que as humilhações típicas do bullying são comuns em alunos da 5ª e 6ª séries. As três cidades brasileiras com maior incidência dessa prática são: Brasília, Belo Horizonte e Curitiba.
Os atos de bullying ferem princípios constitucionais – respeito à dignidade da pessoa humana – e ferem o Código Civil, que determina que todo ato ilícito que cause dano a outrem gera o dever de indenizar. O responsável pelo ato de bullying pode também ser enquadrado no Código de Defesa do Consumidor, tendo em vista que as escolas prestam serviço aos consumidores e são responsáveis por atos de bullying que ocorram dentro do estabelecimento de ensino/trabalho.



Fonte Brasil Escola
Orson Camargo; sociólogo.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Os vagalumes não precisam de colírios ou colibris.


" As vezes um chapéu é somente um chapéu"
Dr. Freud


Filtro solar!
Nunca deixem de usar o filtro solar
Se eu pudesse dar só uma dica sobre o futuro
seria esta: usem o filtro solar!
Os benefícios a longo prazo do uso de Filtro Solar estão provados e comprovados pela ciência,
Já o resto de meus conselhos não tem outra base confiável além de minha própria experiência errante.
Mas agora eu vou compartilhar esses conselhos com vocês...

Aproveite bem, o máximo que puder, o poder e a beleza da
juventude.
Ou, então, esquece... Você nunca vai entender mesmo o poder e a beleza da juventude
até que tenham se apagado.
Mas pode crer que daqui a vinte anos você vai evocar as suas fotos,
E perceber de um jeito que você nem desconfia hoje em dia,
Quantas, tantas alternativas se escancaravam a sua frente.
E como você realmente estava com tudo em cima,
Você não está gordo ou gorda...


Não se preocupe com o futuro.
Ou então preocupe-se, se quiser, mas saiba que
pré-ocupação é tão eficaz quanto mascar chiclete para tentar
resolver uma equação de álgebra.
As encrencas de verdade em sua vida tendem a vir de coisas que nunca passaram pela sua cabeça preocupada,
e te pegam no ponto fraco às 4 da tarde de uma terça-feira modorrenta.

Todo dia, enfrente pelo menos uma coisa que te meta medo de verdade.

Cante.




Não seja leviano com o coração dos outros.
Não ature gente de coração leviano.
Use fio dental.

Não perca tempo com inveja.
Às vezes se está por cima,
às vezes por baixo.
A peleja é longa e, no fim,
é só você contra você mesmo.




Não esqueça os elogios que receber.
Esqueça as ofensas.
Se conseguir isso, me ensine.
Guarde as antigas cartas de amor.
Jogue fora os extratos bancários velhos.

Estique-se.

Não se sinta culpado por não saber o que fazer da vida
As pessoas mais interessantes que eu conheço não sabiam, aos
vinte e dois
o que queriam fazer da vida.
Alguns dos quarentões mais interessantes que eu conheço ainda
não sabem.

Tome bastante cálcio.
Seja cuidadoso com os joelhos.
Você vai sentir falta deles.

Talvez você case, talvez não.
Talvez tenha filhos, talvez não.
Talvez se divorcie aos quarenta, talvez dance ciranda em suas
bodas de diamante.

Faça o que fizer não se auto congratule demais, nem seja severo demais com você,
As suas escolhas tem sempre metade das chances de dar certo,
É assim para todo mundo.
Desfrute de seu corpo use-o de toda maneira que puder, mesmo!!
Não tenha medo de seu corpo ou do que as outras pessoas possam achar dele.
É o mais incrível instrumento que você jamais vai possuir.

Dance.
Mesmo que não tenha aonde além de seu próprio quarto.
Leia as instruções mesmo que não vá segui-las depois.
Não leia revistas de beleza, elas só vão fazer você se achar feio

Refrão: Brother and Sister
Together we'll make it trough
Someday a spirit will take you
And guide you there
I know you've be hurting
But I've been waiting to be there for you
And I'll be there just helping you out
Whenever I can

Dedique-se a conhecer seus pais. É impossível prever quando eles
terão ido embora, de vez.
Seja legal com seus irmãos. Eles são a melhor ponte com o seu
passado e possivelmente quem vai sempre mesmo te apoiar no futuro.

Entenda que amigos vão e vem, mas nunca abra mão de uns
poucos e bons.
Esforce-se de verdade para diminuir as distâncias geográficas e de estilos de vida, porque quanto mais velho você ficar,
Mais você vai precisar das pessoas que você conheceu quando jovem.

More uma vez em Nova York, mas vá embora antes de endurecer.
More uma vez no Havaí, mas se mande antes de amolecer.

Viaje.

Aceite certas verdades inescapáveis:
Os preços vão subir, os políticos vão saracotear, você também vai envelhecer.
E quando isso acontecer você vai fantasiar que quando era jovem os preços eram razoáveis, os políticos eram decentes,
E as crianças respeitavam os mais velhos.
Respeite os mais velhos!!
E não espere que ninguém segure a sua barra.
Talvez você arrume uma boa aposentadoria privada.
Talvez você case com um bom partido, mas não esqueça que um dos dois de repente pode acabar.
Não mexa demais nos cabelos se não quando você chegar aos 40 vai aparentar 85.

Cuidado com os conselhos que comprar,
mas seja paciente com aqueles que os oferecem.
Conselho é uma forma de nostalgia.
Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo,
esfregá-lo,
repintar as partes feias e reciclar tudo por mais do que vale.

Mas, no filtro solar, acredite.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Histeria - Resumo de caso






HISTERIA, PSIQUE-SOMA: UM CASO CLÍNICO – HISTERIO-EPILESIA?


“Não acredite em Duendes: Eles Mentem Muito; O Menino Maluquinho, Ziraldo”


1. Introdução:

O presente trabalho tem como o objetivo traçar alguns pontos sobre a histeria no mundo contemporâneo que por sua vez tem sido motivo de interesse de estudo, em minha prática clínica, ou em meu “trabalho atual”, o “Psico-Soma”, o relato de um Caso Clínico e as influências teóricas que tenho adotado.

2. Sobre a Clínica Contemporânea:

OUTEIRAL na apresentação de sua obra “A Clínica da Transicionalidade” cita Clarisse Lispector; uma frase, “Escrever é procurar entender, procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permanece vago e sufocador” Isso é o que mais que me traz inspiração neste momento “ Escrevo para salvar vida de alguém, provavelmente a minha” . Dito isso, tento contextualizar a clínica, suas possibilidades, suas impossibilidades, esta segunda, que pouco falamos. Citando Novamente OUTEIRAL que traduz com sua inegável sensibilidade “Buscando nos auxiliar a suportar a solidão, a incerteza, a abstinência, a curiosidade e o não-saber que, entre outros muitos fatores, fazem parte de nosso cotidiano clínico (...). Dentro deste contexto que gostaria de falar da Histeria, levando em considerações que revisões teóricas são feitas. Mas se fala hoje muito mais do desaparecimento das “Histéricas” do que a percepção de suas manifestações e hoje a possibilidade de atendimento: melhor dizendo ou o perguntado: Existiria no mundo Contemporâneo, tempo, possibilidade de atendimento desta manifestação psíquica?


3. Sobre a Histeria.

Penso desnecessário fazer uma revisão teórica de Histeria a partir de Freud. Embora BOLLAS (2000) afirme que em qualquer ensaio sobre a Histeria é necessário fazer referência aos seus famosos traços. Segundo o autor quando pensamos na histeria pensamos em pessoas perturbadas por suas demandas sexuais corporais e por suas idéias sexuais recalcadas. Seriam indiferentes à conversão, superidentificadas com o outro, se expressam de modo teatral, preferivelmente devaneando a existência do que nela mesmo se engajando optando, então, pela ilusão da inocência infantil à mundanidade da vida do adulto.
BERLINCK (1997) questiona: Depois que tudo o que foi dito e escrito a respeito da histeria pelos psicanalistas de ontem e de hoje será que há lugar para mais alguém falar ou dizer algo sobre o que é uma das preocupações centrais da clínica e das teorias inauguradas por Freud? Segue o autor “Ou será que é o momento de silenciarmos à escuta dos que tem algo a nos dizer: os próprios Histéricos?”
Dentro de contexto teórico que relatarei um caso que me foi encaminhado há alguns anos que neste texto retomo. Mas para tanto, penso importante alguma revisão teórica que ainda prossigo.
KHAN escreve que desde os primeiros escritos de Freud, há 100 anos, não tivemos grande coisa na literatura que nos permitisse compreender melhor o histérico, pelo contrário seu estatuto clínico foi confundido com seus distúrbios mais graves da personalidade.

"Todos sabem que Freud atribui inicialmente este não saber a episódios de sedução sexual real na infância antes de relacioná-los a fantasmas de sedução recalcados que o paciente expressava, no presente, através de uma linguagem somática, mas do qual se recusava psiquicamente tomar consciência” (M. Khan)

Para Masud Khan “se é verdade que o histérico no inicio de seu desenvolvimento psicossexual, substitui a exploração sexual do eu-corpo pelo desenvolvimento das funções do eu, pode-se compreender não somente por que ele se mostra fundamentalmente ambivalente e hostil em relação às capacidades inatas do seu eu, mas também porque testemunha de uma aversão hostil e invejosa no que refere a todo funcionamento de eu no objeto amado, durante a vida adulta”


4- Apareceu Ana.

Ana “apareceu”. Digo isso porque ela não procurou atendimento. Foi trazida literalmente “pela mão” por seu Neurologista em um consultório improvisado em um serviço público. Antes de entrarem na sala conversei com seu médico em particular, enquanto ela esperava fora do Consultório. Disse-me: “Ela tem Histerio-Epilepsia! Já foram feitos todos os exames possíveis. Nada encontramos. Suas convulsões são graves e não respondem em nada às medicações. Interamos numa clínica para vigiar seu sono. Ela fugiu de Camisola de ônibus até sua casa. 40 Km. Ele repete: Ela tem Histerio-epilepsia. Precisa fazer análise”.


5- Ela é uma histérica:

Para BOLLAS o histérico, seu corpo impõe uma lógica que ele detesta. Substituindo seu Corpo impelido por uma biologia por “um outro” imaginário simbolizando seu sofrimento por suas partes debilitadas, apesar de mostrar pouco interesse pelo apuro destas.

(Ele permanecerá indiferente a este corpo. Sua Sexualidade lhe parece desarmoniosa e embora recalque as idéias sexuais, acredita paradoxalmente, que elas se tornam um núcleo bastante poderoso daquilo que foi banido e que continuamente, se esforça para retornar a consciência. Ele sempre irá se dissociar de tais retornos, parecendo frio e ascético. Ou poderá fazer justamente o contrário, tornando-se uma espécie de diretor geral de seu mundo interno, exibindo idéias em seu próprio teatro C.BOLLAS 2000)

Continua o autor que em meio a estes extremos, o histérico se mostra perdido em seu próprio mundo. Um mundo de devaneios no qual entre outras possibilidade pode permanecer um eterno inocente, vivendo com uma criança dentro do corpo de adulto. Pode transmitir com competência seu estado mental de modo que outros, com temperamento semelhante, possam identificar-se com sua difícil situação. Continua BOLLAS: “Ele poderia se encontrar em uma comunidade de seres afins, todos transmitindo sintomas que vão e vêm de suas próprias internetes psíquicas”.

6- A Mente e o Psique-Soma:

ABRAM em sua obra “A Linguagem de Winnicott” escreve que a contribuição feita por Winnicott à Psicossomática iniciar-se-ia em um trabalho de 1949 em um trabalho de 1949 Mind and Its Relation to the Psyche-Soma que teria sido inspirado por um comentário de Ernest Jones em um texto de 1946 no qual ele escreveria” Não penso que mente exista como uma entidade”.
Winnicott concordaria, mas acrescentaria que em sua prática clínica observaria que existiam pacientes que sentiam sua mente em algum outro lugar, como se essa então fosse uma entidade separada.

“Esta citação... estimulou-me a tentar buscar minhas próprias idéias em torno desse assunto tão vasto e difícil. O esquema corporal, com seus aspectos temporal e espacial, fornece um valioso exemplo do diagrama que o indivíduo possui de si mesmo. A partir daí acredito que não existe uma localização clara para a mente. Na prática clínica nos deparamos com a mente como uma entidade situada em algum lugar pelo paciente...”
(Winnicott, Mind and Its Relation)


Winnicott empregou o termo “mente” a fim de descrever o funcionamento intelectual similar a uma dissociação do indivíduo que sente sua como uma entidade que não participa de seu sentimento de Self. Em um momento posterior de sua obra, Winnicott refere-se a este fenômeno como “clivagem do intelecto”. É a essa clivagem da personalidade que Winnicott recorre ao escrever sobre as doenças psicossomáticas.

Em seu estudo Winnicott tece uma crítica aos médicos que insistem em enxergar apenas o componente físico do paciente, não vendo que as desordens psicossomáticas situam-se “entre o mental e o físico”.

“Tais médicos estão completamente desorientados com sua teoria; curiosamente, muitos deles omitem a importância que o corpo físico possui, do qual o cérebro faz parte (.” (Winnicott, Mind and Its Relation))

Para Winnicott, no desenvolvimento sadio, a psique e o soma não são distinguíveis, pois é o bebê e a criança em desenvolvimento que estão implicados. O indivíduo que é sadio supõe que seu sentimento de self é parte de seu corpo.





“Eis um corpo. A psique e o soma não podem ser distinguidos, a não ser pela forma como os vemos. Podemos nos voltar para o corpo ou para a psique que se desenvolve. Considero que aqui a palavra psique signifique a elaboração imaginativa dos elementos, sentimentos e funções somáticas, ou seja, a atividade física. Sabemos que essa elaboração imaginativa depende da existência e do funcionamento saudável do cérebro, em especial de determinadas partes. A psique, entretanto, não é percebida pelo indivíduo como localizada no cérebro, ou mesmo em algum outro lugar. Pouco a pouco os aspectos da psique e do soma relacionados à pessoa em crescimento envolvem-se em um processo de inter-relação. Essa inter-relação existente entre psique e soma constitui-se em uma fase inicial do desenvolvimento do indivíduo.”(Winnicott, Mind and Its Relation)


Essa “inter-relação entre psique e soma” constitui o ponto central a partir do qual o sentimento de self se desenvolve.

“Em um estágio posterior, o corpo vivo, que possui limites, um interior e um exterior, é sentimento pelo indivíduo para que possa formar o núcleo do self imaginativo.” (Winnicott, Mind and Its Relation)

Como conseqüência, o núcleo do self que se origina da relação precoce mãe-bêbe encerra a noção de uma integração entre mente e corpo.

“Admitamos que a saúde no princípio do desenvolvimento do indivíduo esteja vinculada à continuidade do ser. O início do psique-soma se dá juntamente com determinada linha de desenvolvimento que faz com que a continuidade do ser não seja interrompida; em outras palavras, para que haja um desenvolvimento saudável do pisque-soma precoce existe a necessidade de um ambiente perfeito. Inicialmente essa necessidade é absoluta.” (Winnicott, Mind and Its Relation)

Winnicott estaria se referindo à total identificação da mãe ao bebê, que é precisamente aquilo que origina um ambiente perfeito. Isso quer dizer que ela é capaz de segurar, manejar e cuidar de seu bebê com interesse, protegendo-o, e com todos os elementos do amor. Se tudo correr bem nos primeiros estágios, isso proporcionará ao bebê o sentimento de ser e um self alojado em seu corpo.


7 – Ana em atendimento.

“É claro que a histeria não desapareceu, porém é ela cada vez mais vivida e tratada como uma depressão (...) a sua substituição é vivida e acompanhada, com efeito, por uma valorização dos processos psicológicos de normalização, em detrimento das diferentes formas de exploração do inconsciente (...) para a psicanálise, psicofarmacologia, para psicoterapia, homeopatia”. (ROUDINESCO 2000)



7.1: Sobre o Setting: O lugar onde atendi Ana merece uma descrição. Tratava-se de um serviço público, há 20 anos. Fazia parte de um projeto de atendimento para pessoas de baixa renda. O número de Consultas era delimitado e aí se iniciava o contrato de trabalho. Consultas Terapêuticas? Provavelmente sim. Não caberia aqui discorrer sobre Consultas Terapêuticas, embora o contexto merecesse tal desdobramento teórico.
7.2: O atendimento e Ana.

Iniciamos os atendimentos e Ana seus relatos. Na época com pouco mais de 20 anos, casada e com um filho. Segundo ela vinha de uma família e de um pai muito austero, além de jogador de “boliche”. Ana diz que se “apaixonou” pelo marido quando teria 17 anos. Diz não ser um grande amor, mas, além disso, esta relação seria uma boa maneira de sair de casa. Perguntada por mim sobre suas convulsões relata sintomas parecidos com os quais o neurologista havia referido. No entanto algo se revela de maneira muito interessante: suas convulsões iniciaram justamente quando ela iniciara a relação com seu namorado, contrariando a “vontade do pai”. Suas convulsões eram em números importantes, nas mais diversas situações e até então não se ligava a alguma situação mais específica, como alguma situação de stress, ato sexual, enfim, ocorriam de maneira aleatória não respondendo a medicação e suas várias tentativas. Seus exames neurológicos não mostravam nenhuma alteração sequer.
Inicialmente Ana mostra-se pouco a vontade. Mas sempre estava no seu horário. Sem atraso. Confiava no atendimento. Tinha esperança.
A partir do segundo mês Ana relata que suas convulsões haviam mudado. Não eram tão freqüentes e não aconteciam mais na rua.
Perguntada sobre seu relacionamento, seu casamento diz que quando iniciou seu namoro, logo engravidou e que escondeu essa gravidez pelo tempo que pode e que, quando isso não foi mais possível fugiu de casa e nunca mais fez contato com os pais. Seu filho nasceu, e suas convulsões somente aumentavam. Perguntei a ela por que escondia de maneira tão sofrida essa gravidez e este neto. Por que passado todo esse tempo fizeram mais contato com seus pais. Ana diz que seu pai, contrário ao casamento ameaçara: “Se tu ficares grávida eu corto a tua cabeça e daquele vagabundo e jogo elas com se fossem bolas de boliche”. Dito isso Ana faz uma convulsão. Bate-se, se urina, vira os olhos e repete várias vezes durante a convulsão: “Sim senhor tudo o que o senhor mandar!” Depois da convulsão no consultório, constrangida, assustada, urinada, tem o ímpeto de sair correndo. Digo a ela para se tranqüilizar e disse: “que bom que sua convulsão havia ocorrido no Consultório, em um lugar onde ela estava sendo cuidada, escutada, em tratamento.” Ana se acalma, e sua preocupação seria como ir embora e passar por todo serviço toda urinada. Olha para uma tolha de mesa e pergunta se pode usar a toalha para ir embora. Digo que sim e peço que traga a mesma de volta na próxima sessão, afinal a toalha não era minha nem dela. Era da Instituição, esclareço.
Ana retorna com uma fiosonomia diferente, mais tranquila, mais a vontade sem relatar a convulsão. Diz estar mais tranquila, uma vez que entre uma sessão e outra não teria tido nenhuma convulsão. Os atendimentos continuam e suas convulsões diminuem até então não mais ocorrerem. Pergunto se ela não deseja ver mais os pais e responde que se sentia mais a vontade para pensar no assunto. Por contrato, o fim do atendimento começa a se aproximar. Dito isso na próxima sessão comparece com o filho. Não interpreto. Atendo. Ao final da sessão agradeço por apresentar seu filho e pontuo que seria interessante que na próxima “consulta” viesse sozinha. Ela concorda e diz: “ Não preciso mais andar com ele, minhas convulsões não acontecem mais.”
Na próxima sessão senta e me diz: “sonhei que estava transado contigo doutor. O Senhor não sonha em transar comigo?” Respondo: que bom que você consegue falar isso aqui. Fico grato pelo seu interesse, mas sou seu terapeuta e que seus desejos eram normais uma vez eu havia a ajudado e teria com ela um vínculo saudável e importante. E que mais importante ainda seria se ela conseguisse manter vínculos assim que lhe fizessem bem sem se destruir. Ana chora e diz que sentirá saudades. Digo a ela que outro colega viria atendê-la e que ela não teria interrupção no tratamento. Ana se mostra triste nas próximas consultas e em nossa última sessão diz não querer ser mais atendida por ninguém que não eu. “Se eu piorar procuro o senhor doutor, em seu consultório particular”. Também senti falta de Ana.


Referências Bibliográficas:

ABRAN, Jan., A linguagem de Winnicott. Dicionário das palavras e Expressões Utilizadas por Donald W. Winnicott Rio de Janeiro, Revinter (2000).
BOLLAS, Cristopher, Hyteria São Paulo. Escuta (2000).
BERLINCK, Manoel (org.) Histeria, São Paulo Escuta (1997).
OUTEIRAL, José A Clínica da Transicionalidade fragmento de adolescente, Rio de Janeiro, Revinter (2000).
ROUDINESCO, E (1997) . El psicoanálisis a fine del siglo XX. La situación en Francia : perspectivas clínicas y institucionales. International psycoanalysis. The news letter of IPA. v.6,1,p.40-45.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mas eu me mordo de ciúmes!



“Eu quero levar uma vida moderninha
Deixar minha menininha sair sozinha
Não ser machista e não bancar o possessivo
Ser mais seguro e não ser tão impulsivo
Mas eu me mordo de ciúmes”
(ultraje a rigor)




A estrofe da música acima há 20 anos faz sucesso e ainda é cantada. Não é à toa. Fala muito, com bom humor de uma característica humana: O Ciúme.


A pessoa que desenvolve um ciúmes, um ciúme possessivo e obsessivo pelo parceiro pode estar sofrendo de um distúrbio obsessivo possivelmente começa apresentar sintomas daquilo que em psicanálise chamamos de uma personalidade obsessiva compulsiva.

Devemos observar que a pessoa que sofre com o ciúme por ter uma Personalidade Obsessiva compulsiva tem um funcionamento característico com uma sintomatologia a ser observada:
Alguns Exemplos seriam:

Há um padrão persistente de preocupação com asseio, perfeccionismo, controle mental e interpessoal.

Há pouca flexibilidade, transparência, relaxamento das preocupações de dos pensamentos, os pensamentos apresentam pouca eficiência, os pensamentos acontecem recorrentemente, ou seja, não saem da cabeça.




Este distúrbio pode começar no início da vida adulta e apresentam uma variedade de contextos, como indicado por quatro (ou mais) dos seguintes sintomas:

1. Estar preocupado com detalhes, regras, listas, ordem, organização ou horários e com o que ainda vai fazer
2. Mostra perfeccionismo que interfere com a tarefa concluída (por exemplo, é impossível concluir um projeto devido ao aumento de suas próprias exigências das normas e regras)
3. É demasiadamente dedicado ao trabalho e produtividade e deixa de lado as atividades de lazer e amizades.

4. É muito convencido de seus próprios pensamentos, não aceita a opinião alheia, ou não acredita nas evidências que a outra pessoa aponta, é escrupuloso, é inflexível em matéria de moralidade, ética ou valores.

5. É incapaz de se desfazer de objetos sem valor, mesmo quando estes não têm valor nem sentimental

6. Mostra-se relutante em delegar tarefas ou a trabalhar com outras pessoas, salvo se apresentarem exatamente a sua mesma maneira de fazer as coisas e a mesma forma de pensamento que o seu.
7. Adota um estilo pão-duro, o dinheiro é visto como algo a ser acumulado para as futuras catástrofes
8. Mostra rigidez e teimosia
9. Acredita piamente em seus pensamentos e acha que os outros estão mentindo. NO caso do ciúme, nunca aceita a explicação do outro, ou acha que está sendo sempre enganada.
10. Pensa o tempo todo em como controlar a outra pessoa a ponto de querer acompanhar tudo o que ela faz, onde está o que está pensando, numa necessidade de posse do outro.
11. Demonstra tentativas de controle sobre situações e vínculos afetivos.
12. Briga com o passado como se o presente se misturasse ao mesmo. Tem ciúmes do passado e presentifica o passado como se ela mesma fosse protagonista de situações das quais por questões temporais nem fez parte. Não estava lá.
Devemos esclarecer que estes sintomas podem também levar há uma total desorganização emocional provocando cisões de ego e até depressão.



Tratamento:
Os indivíduos que sofrem desta desordem de personalidade muitas vezes se caracterizam pela sua falta de abertura e flexibilidade, não só em suas rotinas diárias, mas também com as relações interpessoais e expectativas.

As imensas preocupações com asseio perfeccionismo e controle de suas vidas e de suas relações ocupam grande parte de sua vida.

As opções de tratamento opções que não se encaixam no projeto de programa de tratamento do cliente provavelmente será rejeitada rapidamente ao invés de ser uma tentativa aprovada por ele.

Os indivíduos que sofrem deste distúrbio têm dificuldade em incorporar novas informações e mudanças em suas vidas.

Para incorporar novas aprendizagens é necessário uma empatia muito grande com o terapeuta para que o mesmo consiga colocar novos planos de vida e confrontação com a realidade para que ocorra novas reestruturações cognitivas.

A técnica de relaxamento é uma indicação para concorrência com os pensamentos disfuncionais e com a ansiedade vivida pela necessidade de controle.

A capacidade para trabalhar com os outros é igualmente afetada, uma vez que eles vêem o mundo em preto e branco, acham que somente a sua maneira de fazer as coisas é a correta. Naturalmente, essa lógica defeituosa também será traduzida para a sua relação terapêutica com o psicanalista e seu tratamento.

Dessa forma, cabe ao psicanalista saber que será improvável ter sucesso na utilização de técnicas ou tratamentos que não tenham sido previamente aprovados pelo paciente para o uso.

Às vezes isso pode ser feito simplesmente por afirmar a eficácia de um determinado tratamento para um problema específico, citando as pesquisas.
Quando essa desordem de personalidade é combinada com a apresentação de uma doença, deve ser utilizado abordagem multidisciplinar para o uso de terapia medicamentosa para maior eficácia.

A técnica de confrontação com a realidade e a busca de evidências na terapia analítica é uma forma que ajuda muito a pessoa com ciúmes obsessivo a entender o modo de funcionamento de seus pensamentos e fantasias, conseguindo diferenciar entre estes aspectos.

A terapia de casal pode ser indicada quando o ciúmes está focado no parceiro que não aceita sua doença e terapia e, conseqüentemente fica mais fácil aceitar o atendimento terapêutico para ambos.

O ciúmes possessivo atrapalha a relação do casal e se não for trabalhadas estas questões acontece o desgaste muito rápido na relação, interferindo em direitos e deveres de cada um e principalmente no respeito entre o casal.

A busca de ajuda terapêutica permite uma melhor avaliação do contexto e pode haver encaminhamento para uma avaliação clínica, pois em alguns casos há a necessidade de intervenção medicamentosa para maior controle da ansiedade e dos pensamentos obsessivos.

Há de se dizer: àqueles que lêem: Não se deve procurar promessas de curas imediatas. Não sem tem notícia séria e científica que o ciúme seja herança de uma vida passada, ou tão pouco isso venha a se tratar em “curandeirismos” como a hipnose que nunca foi uma técnica psicanalítica e que por Freud foi abandonada em 1909 quando então fez seus primeiros tratados psicanalíticos longe da hipnose, ou seja, há mais de 100 anos.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009


Um Ensaio Sobre O Suicídio.

O que os expectadores que assistem e chamam de loucura vai o aviso: pelo suicida é entendido como Solução.

21 de setembro. O dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Iniciado em 2003, por iniciativa da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio (IASP) e apoiada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) esta comemoração visa anualmente melhorar o esclarecimento acerca do suicídio através da disseminação de informação, diminuição do estigma e, sobretudo, difundir a idéia de que o suicídio é prevenível.
O tema de 2009 é a prevenção do suicídio em diferentes culturas.

Um assunto tão Polêmico. Tão Velado. Seria ele inerente a condição humana? Seria Normal? O que sabemos sobre o Suicídio? Sobre o Parasuícidio? Sobre o Homicídio-Suicídio? Seria os pensamentos suicidas algo tão distante de nós? Por que nos assustamos ou evitamos falar neste tema? Porque a morte de si por si próprio acontece?
Perguntas que não sabemos responder tão facilmente sobre um ato que abrevia a vida.
Por que os suicídios acontecem em sua maioria aos domingos? Quais os mitos sobre o suicídio?
“Segundo Marcimedes M. da Silva (Mestre em Psicologia Social) seria difícil precisar quando o primeiro suicídio ocorreu. Segundo o autor ele parece estar sempre presente na história da humanidade. A Enciclopédia Delta de História Geral registra que, em um ritual no ano 2.500 a.C., na cidade de Ur, doze pessoas beberam uma bebida envenenada e se deitaram para esperar a morte. Recorrendo a livros religiosos como a Bíblia, por exemplo, é possível também encontrar os registros de alguns suicidados famosos - Sansão, Abimelec, Rei Saul, Eleazar e Judas.O suicídio de pessoas famosas foi sendo registrado, porém a história oficial ignorou os inúmeros cidadãos comuns suicidados. No entanto, historicamente, é possível constatar a maneira como a sociedade tratou os suicidados e como este tratamento foi se alternando, cabendo observar, com especial atenção, o suicídio enquanto questão política tratada de diferentes maneiras pelo Estado”.
“Na Antiga Grécia, um indivíduo não podia se matar sem prévio consenso da comunidade porque o suicídio constituía um atentado contra a estrutura comunitária. O suicídio era condenado politicamente ou juridicamente. Eram recusadas as honras de sepultura regular ao suicidado clandestino e a mão do cadáver era amputada e enterrada a parte. Por sua vez, o Estado tinha poder para vetar ou autorizar um suicídio bem como induzi-lo. Por exemplo, em 399 a.C., Sócrates foi obrigado a se envenenar.”:


O estudo de Durkheim(1987), analisando os suicídios ocorridos no século passado, tornou-se obra clássica da sociologia por chamar a atenção sobre a significação social do suicídio pessoal - o suicídio é uma denúncia individual de uma crise coletiva. Já o estudo de Kalina e Kovadloff merece destaque porque parte da premissa de que em cada sujeito que se mata fracassa uma proposta comunitária. Eles analisam a sociedade atual com clara intenção de entender o suicídio como existência tóxica. A existência tóxica é a vida vivida de forma que o ser humano esteja se matando no cotidiano, todos se matando em comum acordo através de uma maneira de viver perigosa para a saúde. Uma existência tóxica é uma vida envenenada porque vive daquilo que a aniquila, promove e perpetua a alienação humana e fomenta o apoio às contradições que a destrõem. Para tanto, multiplicam-se as condutas autodestrutivas como o armamento nuclear, a contaminação do planeta e, até mesmo, a despersonificação urbana do homem contemporâneo. Enquanto na concepção clássica o suicídio é o ponto final de um processo, Kalina e Kovadloff(1983) afirmam que o suicídio é o processo em si mesmo.Partindo do pressuposto que o suicídio é um processo em si mesmo que não termina com a morte e, ainda, que o suicídio é um gesto de comunicação entende-se que o indivíduo se mata para relacionar-se com os outros e não para ficar só ou desaparecer. A morte é o único meio que o sujeito encontra para restabelecer o elo de comunicação com os outros. Continua o Autor : Fernando Sabino(1986), na crônica intitulada "Suíte Ovalliana", conta que Jayme Ovalle, questionado a respeito do suicídio, disse: "É um ato de publicidade: a publicidade do desespero."(p. 144) Desde dezembro de 1990, a publicidade do desespero dos índios guaranis de 16 a 22 anos, em Mato Grosso do Sul, ocupa as páginas dos jornais brasileiros, obrigando as autoridades governamentais a se interessarem por esta crescente onda de suicídios por enforcamento e por ingestão de veneno. A questão a ser discutida é: não é o suicídio um gesto de comunicação, a transmissão de uma mensagem individual para a sociedade? A resposta violenta do suicidado é sua busca em comunicar-se, transformando-se, porque a sociedade não lhe permitiu antes que o fizesse. Quando lhe foi impossibilitado comunicar-se, cortaram-lhe também sua influência sobre a sociedade, a qual se restabelece através de seu gesto suicida, mesmo que não seja uma pessoa famosa.
Note-se que o termo "suicida" não clarifica qual é a condição do indivíduo. Por isto, é preciso fazer uma distinção entre os termos "suicidando" - aquele que ameaça e/ou tenta suicídio e que pode ser chamado de ameaçador ou tentador; e "suicidado" - aquele que efetivamente se matou.

“ O suicidado pratica um ato de comunicação e não um gesto solitário e que, além de tudo, é uma comunicação para uma sociedade que o impede de comunicar-se de outras formas que não seja através deste gesto.”


Contrariando os mitos:
1. A cada 10 pessoas que cometem suicídio, oito avisaram família/amigos/parentes.
2. A maioria dos suicidas está indecisa sobre viver ou morrer e, frequentemente, "brincam com a morte". Confiando que outras pessoas vão salva-lo. Raríssimas vezes pessoas cometem suicídio sem avisar amigos e parentes.
3. A vontade de se matar passa. O indivíduo, com tratamento adequado, pode voltara ter uma vida normal
4. A maioria dos suicídios ocorre quando o indivíduo começa a melhorar. Menos deprimido e com mais energia, o suicida consegue dar vazão aos seus pensamentos e sentimentos mais mórbidos.
5. A morte por suicídio geralmente acontece depois de 5 ou 6 tentativas mal sucedidas.

Fato importante esclarecer: ter pensamentos suicidas não implica ser-se “louco”, nem necessariamente ser doente mental. As pessoas que tentam o suicídio estão seriamente afligidas e deprimidas. Esta depressão pode ser reativa, situação que é perfeitamente normal em circunstâncias difíceis, ou pode ser uma depressão endógena que é o resultado de um estado emocional diagnosticável com outras causas subjacentes. Também pode ser uma combinação das duas.
A questão da doença mental é difícil porque ambos os tipos de depressão podem ter sintomas e efeitos semelhantes. Além do mais, a definição exata de depressão como doença mental diagnosticável (ex. depressão clínica) tende a ter diferentes matizes, assim o fato da pessoa que se sente afligida o suficiente para tentar o suicídio ser diagnosticada como sofrendo de depressão clínica pode variar de pessoa para pessoa e entre culturas.
É provavelmente mais útil distinguir entre estes dois tipos de depressão e tratá-los adequadamente do que tentar diagnosticar a depressão como forma de doença mental, mesmo que os sintomas apresentados pela depressão reativa correspondam aos critérios da depressão clínica. Por exemplo, Appleby e Condonis escreveram:
"Pensamentos e atos suicidas podem ser o resultado de tensões e perdas com as quais não se consegue lidar.”

Numa sociedade onde o estigma e ignorância acerca da doença mental é significativo, a pessoa que experimenta comportamentos suicidários pode temer que os outros a considerem "louca" se revelarem os seus sentimentos, tornando-se relutantes em pedir ajuda durante a crise que atravessam. De qualquer forma, descrever alguém como "louco", com fortes conotações negativas, não é, provavelmente, útil e o mais provável é dissuadir alguém de procurar ajuda o que se pode revelar bastante benéfico, independentemente de ser diagnosticada doença mental ou não.

As pessoas que sofrem de uma doença mental tal como a esquizofrenia ou depressão clínica têm índices significativamente mais altos de suicídio, embora sejam ainda uma minoria dos que tentam tal ato. Para estas pessoas, ter a sua doença corretamente diagnosticada, com um tratamento apropriado, pode ser uma forma de impedir o ato de suicídio. "

Um pouco sobre estatísticas
Taxas de suicídio por 100.000 habitantes - Europa + outros países, ano mais recente disponível, ordenação decrescente
País Global Masculino Feminino
Lituânia 42.1 74.3 13.9
Rússia 38.7 69.3 11.9
Bielorússia 35.1 63.3 10.3
Eslovénia 28.1 45.0 12.0
Hungria 27.7 44.9 12.0
Estónia 27.3 47.7 9.8
Ucrânia 26.1 46.7 8.4
Letónia 26.0 45.0 9.7
Japão 23.8 35.2 12.8
Bélgica 21.1 31.2 11.4
Finlândia 20.6 31.9 9.8
Croácia 19.5 31.4 8.4
Suíça 18.4 26.5 10.6
Áustria 17.9 27.1 9.3
França 17.6 26.6 9.1
Moldávia 17.2 30.6 4.8
República Checa 16.9 27.5 6.8
Polónia 15.5 26.6 5.0
Roménia 14.1 23.9 4.7
Bulgária 14.0 21.0 7.3
Dinamarca 13.6 20.2 7.2
Alemanha 13.5 20.4 7.0
Suécia 13.4 18.9 8.1
Eslováquia 13.3 23.6 3.6
Irlanda 12.7 21.4 4.1
Austrália 12.7 20.1 5.3
Islândia 12.6 19.6 5.6
Nova Zelândia 11.9 19.8 4.2
Canadá 11.9 18.7 5.2
Luxemburgo 10.9 18.5 3.5
Noruega 10.9 16.1 5.8
Índia 10.7 12.2 9.1
EUA 10.7 17.6 4.1
Holanda 9.2 12.7 5.9
Itália 7.1 11.1 3.3
Reino Unido 6.9 10.8 3.1
Israel 6.3 9.9 2.7
Brasil 4.1 6.6 1.8
Albânia 4.0 4.7 3.3
Grécia 2.9 4.7 1.2
Geórgia 2.2 3.4 1.1
Arménia 1.8 3.2 0.5
Azerbeijão 1.1 1.8 0.5




Fonte: "Hearing the cry: Suicide Prevention", Appleby e Condonis, 1990. (ISBN 0-646-02395-0)

Como lidar com “um possível Suicídio”? Orienta-se que não se deve tentar resolver a situação sozinho; que se fale direto, abertamente sobre o suicídio; Importante que se esteja disposto ouvir a permitir a expressão de sentimentos com paciência.Um outro fato muito importante é não julgar se o suicídio é certo ou errado ou se os sentimentos da pessoa são bons ou ruins; evite sermão sobre os valores da vida, a importância da família, etc; Alguns Especialistas recomendam outras posturas:

Esteja disponível, demonstre interesse e compreensão.Não duvide que ele/ela se suicide; Não aja como se estivesse chocado;Tome uma atitude, remova da casa remédios, álcool, drogas, cordas, fios, facas e armas; Busque ajuda: Seja enfático ao encorajar a pessoa a buscar um profissional da área de saúde mental.Cabe Lembrar segundo estudo do FDA 80% dos americanos que se suicidaram em 2008 usavam somente antidepressivos.