quinta-feira, 1 de outubro de 2009


Um Ensaio Sobre O Suicídio.

O que os expectadores que assistem e chamam de loucura vai o aviso: pelo suicida é entendido como Solução.

21 de setembro. O dia Mundial de Prevenção do Suicídio. Iniciado em 2003, por iniciativa da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio (IASP) e apoiada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) esta comemoração visa anualmente melhorar o esclarecimento acerca do suicídio através da disseminação de informação, diminuição do estigma e, sobretudo, difundir a idéia de que o suicídio é prevenível.
O tema de 2009 é a prevenção do suicídio em diferentes culturas.

Um assunto tão Polêmico. Tão Velado. Seria ele inerente a condição humana? Seria Normal? O que sabemos sobre o Suicídio? Sobre o Parasuícidio? Sobre o Homicídio-Suicídio? Seria os pensamentos suicidas algo tão distante de nós? Por que nos assustamos ou evitamos falar neste tema? Porque a morte de si por si próprio acontece?
Perguntas que não sabemos responder tão facilmente sobre um ato que abrevia a vida.
Por que os suicídios acontecem em sua maioria aos domingos? Quais os mitos sobre o suicídio?
“Segundo Marcimedes M. da Silva (Mestre em Psicologia Social) seria difícil precisar quando o primeiro suicídio ocorreu. Segundo o autor ele parece estar sempre presente na história da humanidade. A Enciclopédia Delta de História Geral registra que, em um ritual no ano 2.500 a.C., na cidade de Ur, doze pessoas beberam uma bebida envenenada e se deitaram para esperar a morte. Recorrendo a livros religiosos como a Bíblia, por exemplo, é possível também encontrar os registros de alguns suicidados famosos - Sansão, Abimelec, Rei Saul, Eleazar e Judas.O suicídio de pessoas famosas foi sendo registrado, porém a história oficial ignorou os inúmeros cidadãos comuns suicidados. No entanto, historicamente, é possível constatar a maneira como a sociedade tratou os suicidados e como este tratamento foi se alternando, cabendo observar, com especial atenção, o suicídio enquanto questão política tratada de diferentes maneiras pelo Estado”.
“Na Antiga Grécia, um indivíduo não podia se matar sem prévio consenso da comunidade porque o suicídio constituía um atentado contra a estrutura comunitária. O suicídio era condenado politicamente ou juridicamente. Eram recusadas as honras de sepultura regular ao suicidado clandestino e a mão do cadáver era amputada e enterrada a parte. Por sua vez, o Estado tinha poder para vetar ou autorizar um suicídio bem como induzi-lo. Por exemplo, em 399 a.C., Sócrates foi obrigado a se envenenar.”:


O estudo de Durkheim(1987), analisando os suicídios ocorridos no século passado, tornou-se obra clássica da sociologia por chamar a atenção sobre a significação social do suicídio pessoal - o suicídio é uma denúncia individual de uma crise coletiva. Já o estudo de Kalina e Kovadloff merece destaque porque parte da premissa de que em cada sujeito que se mata fracassa uma proposta comunitária. Eles analisam a sociedade atual com clara intenção de entender o suicídio como existência tóxica. A existência tóxica é a vida vivida de forma que o ser humano esteja se matando no cotidiano, todos se matando em comum acordo através de uma maneira de viver perigosa para a saúde. Uma existência tóxica é uma vida envenenada porque vive daquilo que a aniquila, promove e perpetua a alienação humana e fomenta o apoio às contradições que a destrõem. Para tanto, multiplicam-se as condutas autodestrutivas como o armamento nuclear, a contaminação do planeta e, até mesmo, a despersonificação urbana do homem contemporâneo. Enquanto na concepção clássica o suicídio é o ponto final de um processo, Kalina e Kovadloff(1983) afirmam que o suicídio é o processo em si mesmo.Partindo do pressuposto que o suicídio é um processo em si mesmo que não termina com a morte e, ainda, que o suicídio é um gesto de comunicação entende-se que o indivíduo se mata para relacionar-se com os outros e não para ficar só ou desaparecer. A morte é o único meio que o sujeito encontra para restabelecer o elo de comunicação com os outros. Continua o Autor : Fernando Sabino(1986), na crônica intitulada "Suíte Ovalliana", conta que Jayme Ovalle, questionado a respeito do suicídio, disse: "É um ato de publicidade: a publicidade do desespero."(p. 144) Desde dezembro de 1990, a publicidade do desespero dos índios guaranis de 16 a 22 anos, em Mato Grosso do Sul, ocupa as páginas dos jornais brasileiros, obrigando as autoridades governamentais a se interessarem por esta crescente onda de suicídios por enforcamento e por ingestão de veneno. A questão a ser discutida é: não é o suicídio um gesto de comunicação, a transmissão de uma mensagem individual para a sociedade? A resposta violenta do suicidado é sua busca em comunicar-se, transformando-se, porque a sociedade não lhe permitiu antes que o fizesse. Quando lhe foi impossibilitado comunicar-se, cortaram-lhe também sua influência sobre a sociedade, a qual se restabelece através de seu gesto suicida, mesmo que não seja uma pessoa famosa.
Note-se que o termo "suicida" não clarifica qual é a condição do indivíduo. Por isto, é preciso fazer uma distinção entre os termos "suicidando" - aquele que ameaça e/ou tenta suicídio e que pode ser chamado de ameaçador ou tentador; e "suicidado" - aquele que efetivamente se matou.

“ O suicidado pratica um ato de comunicação e não um gesto solitário e que, além de tudo, é uma comunicação para uma sociedade que o impede de comunicar-se de outras formas que não seja através deste gesto.”


Contrariando os mitos:
1. A cada 10 pessoas que cometem suicídio, oito avisaram família/amigos/parentes.
2. A maioria dos suicidas está indecisa sobre viver ou morrer e, frequentemente, "brincam com a morte". Confiando que outras pessoas vão salva-lo. Raríssimas vezes pessoas cometem suicídio sem avisar amigos e parentes.
3. A vontade de se matar passa. O indivíduo, com tratamento adequado, pode voltara ter uma vida normal
4. A maioria dos suicídios ocorre quando o indivíduo começa a melhorar. Menos deprimido e com mais energia, o suicida consegue dar vazão aos seus pensamentos e sentimentos mais mórbidos.
5. A morte por suicídio geralmente acontece depois de 5 ou 6 tentativas mal sucedidas.

Fato importante esclarecer: ter pensamentos suicidas não implica ser-se “louco”, nem necessariamente ser doente mental. As pessoas que tentam o suicídio estão seriamente afligidas e deprimidas. Esta depressão pode ser reativa, situação que é perfeitamente normal em circunstâncias difíceis, ou pode ser uma depressão endógena que é o resultado de um estado emocional diagnosticável com outras causas subjacentes. Também pode ser uma combinação das duas.
A questão da doença mental é difícil porque ambos os tipos de depressão podem ter sintomas e efeitos semelhantes. Além do mais, a definição exata de depressão como doença mental diagnosticável (ex. depressão clínica) tende a ter diferentes matizes, assim o fato da pessoa que se sente afligida o suficiente para tentar o suicídio ser diagnosticada como sofrendo de depressão clínica pode variar de pessoa para pessoa e entre culturas.
É provavelmente mais útil distinguir entre estes dois tipos de depressão e tratá-los adequadamente do que tentar diagnosticar a depressão como forma de doença mental, mesmo que os sintomas apresentados pela depressão reativa correspondam aos critérios da depressão clínica. Por exemplo, Appleby e Condonis escreveram:
"Pensamentos e atos suicidas podem ser o resultado de tensões e perdas com as quais não se consegue lidar.”

Numa sociedade onde o estigma e ignorância acerca da doença mental é significativo, a pessoa que experimenta comportamentos suicidários pode temer que os outros a considerem "louca" se revelarem os seus sentimentos, tornando-se relutantes em pedir ajuda durante a crise que atravessam. De qualquer forma, descrever alguém como "louco", com fortes conotações negativas, não é, provavelmente, útil e o mais provável é dissuadir alguém de procurar ajuda o que se pode revelar bastante benéfico, independentemente de ser diagnosticada doença mental ou não.

As pessoas que sofrem de uma doença mental tal como a esquizofrenia ou depressão clínica têm índices significativamente mais altos de suicídio, embora sejam ainda uma minoria dos que tentam tal ato. Para estas pessoas, ter a sua doença corretamente diagnosticada, com um tratamento apropriado, pode ser uma forma de impedir o ato de suicídio. "

Um pouco sobre estatísticas
Taxas de suicídio por 100.000 habitantes - Europa + outros países, ano mais recente disponível, ordenação decrescente
País Global Masculino Feminino
Lituânia 42.1 74.3 13.9
Rússia 38.7 69.3 11.9
Bielorússia 35.1 63.3 10.3
Eslovénia 28.1 45.0 12.0
Hungria 27.7 44.9 12.0
Estónia 27.3 47.7 9.8
Ucrânia 26.1 46.7 8.4
Letónia 26.0 45.0 9.7
Japão 23.8 35.2 12.8
Bélgica 21.1 31.2 11.4
Finlândia 20.6 31.9 9.8
Croácia 19.5 31.4 8.4
Suíça 18.4 26.5 10.6
Áustria 17.9 27.1 9.3
França 17.6 26.6 9.1
Moldávia 17.2 30.6 4.8
República Checa 16.9 27.5 6.8
Polónia 15.5 26.6 5.0
Roménia 14.1 23.9 4.7
Bulgária 14.0 21.0 7.3
Dinamarca 13.6 20.2 7.2
Alemanha 13.5 20.4 7.0
Suécia 13.4 18.9 8.1
Eslováquia 13.3 23.6 3.6
Irlanda 12.7 21.4 4.1
Austrália 12.7 20.1 5.3
Islândia 12.6 19.6 5.6
Nova Zelândia 11.9 19.8 4.2
Canadá 11.9 18.7 5.2
Luxemburgo 10.9 18.5 3.5
Noruega 10.9 16.1 5.8
Índia 10.7 12.2 9.1
EUA 10.7 17.6 4.1
Holanda 9.2 12.7 5.9
Itália 7.1 11.1 3.3
Reino Unido 6.9 10.8 3.1
Israel 6.3 9.9 2.7
Brasil 4.1 6.6 1.8
Albânia 4.0 4.7 3.3
Grécia 2.9 4.7 1.2
Geórgia 2.2 3.4 1.1
Arménia 1.8 3.2 0.5
Azerbeijão 1.1 1.8 0.5




Fonte: "Hearing the cry: Suicide Prevention", Appleby e Condonis, 1990. (ISBN 0-646-02395-0)

Como lidar com “um possível Suicídio”? Orienta-se que não se deve tentar resolver a situação sozinho; que se fale direto, abertamente sobre o suicídio; Importante que se esteja disposto ouvir a permitir a expressão de sentimentos com paciência.Um outro fato muito importante é não julgar se o suicídio é certo ou errado ou se os sentimentos da pessoa são bons ou ruins; evite sermão sobre os valores da vida, a importância da família, etc; Alguns Especialistas recomendam outras posturas:

Esteja disponível, demonstre interesse e compreensão.Não duvide que ele/ela se suicide; Não aja como se estivesse chocado;Tome uma atitude, remova da casa remédios, álcool, drogas, cordas, fios, facas e armas; Busque ajuda: Seja enfático ao encorajar a pessoa a buscar um profissional da área de saúde mental.Cabe Lembrar segundo estudo do FDA 80% dos americanos que se suicidaram em 2008 usavam somente antidepressivos.

domingo, 2 de agosto de 2009

O analista de Passo Fundo. Contribuições Lacanianas.


O Lacaniano de Passo Fundo

O psicanalista Mário Corso entrevista, para o Cultura,(Caderno de Cultura, Zero Hora, Porto Alegre) o Dr. Taurino Netto, conhecido como o lacaniano de Passo Fundo, patrão e fundador do Centro de Tradições Psicanalíticas Gaúchas – Proseando nos pelego É um contraponto ao Analista de Bagé, do Luiz Fernando Veríssimo.

Mário Corso: O Sr foi analisado pelo Analista de Bagé, como discípulo dele, considera que a teoria do joelhaço segue válida?
Taurino Netto: O joelhaço é a grande contribuição psicanalítica que o Rio Grande deu ao mundo, infelizmente ainda não foi reconhecida. Apenas tenho um senão com o Dr. de Bagé a respeito do croque. Não creio que se deva dar croque em paciente, isso puxa o lado criança dele, infantiliza o vivente. Temos que tratá-lo como gente grande, caso precisar dum corretivo o padrão é sentá o rebenque, coisa de adulto para adulto.
Mário Corso: Ainda que mal lhe pergunte, não tem muito gaúcho que acha que análise é frescura?
Taurino Netto: Todo mundo pensa assim até que a vida te chama na chincha, aí coisa é diferente. Quando, por exemplo, a prenda foi embora, ou um ente querido vai pros pagos do Patrão-Grande, ou ainda um filho saiu chambão e maconheiro. Nessas horas em que o vivente se sente esquilado pelo destino, ele afroxa o garrão e vem aprumá as idéias nos pelego do analista. Até por que, não tem por que um bagual ficar macambúzio e sentindo um minuano gelado na alma assim, sem serventia.
Mário Corso: Existem novas formas de neurose nos tempos atuais?
Taurino Netto: Foi bom me perguntar, até desenvolvi um conceito para isso, é a "Síndrome de Guaxismo". Tu sabes que guaxo é o que nasce pelos cantos sem ninguém cuidar, ou bicho que teve mãe postiça. Pois bem, o gaúcho foi pra cidade e se perdeu do chão da querência. Como não cultiva as coisas da terra, se sente sem raiz, sem pai nem mãe. Sente que ninguém cuida dele e que já não pertence a nada. Enfim, vai ficando mais perdido que cusco em tiroteio, e se não se cuida, tu sabes, de haragano prá boletero é uma orelha. Depois disso só maneando e chá de vara de marmelo.
Mário Corso: E antes que isso aconteça?
Taurino Netto: Pra prevenir é bom chimarrão, arroz de carreteiro, escutar uns discos do Noel Guarani e andar a cavalo. Feito isso, tá pelada a coruja.
Mário Corso: O que o Sr. acha dos recentes avanços na medicação?
Taurino Netto: Pois olha, eu ainda sô mais dos chás. Esses dias mesmo curei uma guria com carqueja. Veio pras consultas reclamar do mundo, do marido, dos pais, tudo era ruim. Pois pedi que cada dia tomasse três xícaras de chá de carqueja bem forte, uma ao acordar, depois pela tarde e a última pela noite. Passou um mês e ela ali só sapateando no meu saco, falando de tudo de ruim que os outros eram. Até que um dia ela diz que o chá não estava dando resultado, ela estava igual e que o chá era flor de ruim. E eu lhe disse que o chá não era para ela melhorar. E ela me pergunta: - pra que é então? Isso é prá tu ver como tu é com os outros, guria! Ela me responde: - eu sou como chá de carqueja? Pior, lhe digo, ao menos carqueja faz bem pros rins. Saiu batendo a porta, e mais sem graça que trote de vaca, mas nas sessões seguintes já estava mais pra chá de macela.
Mário Corso: Quem lhe parece que necessita de análise?
Taurino Netto: A neurose é quando o índio se atrapalha sozinho, quando não precisa de inimigo. Tu sabes que têm uns cuera que se enroscam as boleadeiras nas próprias pernas e a vida não vai pra frente nem pra trás. Pois os psicanalistas estão aqui pra desinliá o vivente, para que ele possa retomar as rédeas do seu destino. Demora um pouco por que neurose é coisa mais embretada que rato em guampa, e o analista tem que ter mais paciência que tropeiro de lesma.
Mário Corso: O Sr. tem outra teoria em desenvolvimento?
Taurino Netto: Estou trabalhando na definição da "Personalidade Carrapato" é o que mais tem hoje em dia. Sabe esses tipo que não conseguem ficar sozinhos, que não fazem nada, mas nada mesmo da vida, só enche a paciência dos em volta. Por isso é a "Personalidade Carrapato", vive do sangue e da vida dos outros, parece que veio para vida a passeio. E também ando lidando no aperfeiçoamento de um conceito: quem é mais vaqueano em psicanálise sabe que embora o joelhaço seja a contribuição mais conhecida, ela é técnica, e não se compara à contribuição teórica que o Analista de Bagé nos deu com a descoberta da Noemi, a porção feminina que todo gaúcho carrega naquele espaço espremido entre o ego e o id, nos fundos do superego. Cá entre nós, ele tem razão, mas acho que deveria se chamar porção Creuza. Pois bem, tenho tentado aperfeiçoar esse conceito e explicar todos os porquê da Creuza. Em outras palavras, como é que cada gaúcho segura a rédea firme e curta pra manter sua Creuza num andar seguro, pois se largar é ela que encilha o vivente.
È como eu sempre digo: mulher sardenta, cavalo passarinheiro e uma Creuza sem freio, alerta companheiro!
Mário Corso: E como é que o Sr. lida com a sua parte Creuza?
Taurino Netto: Tu sabe por que é que todo gaúcho anda de faca na cintura? É pra usa quando uns boi corneta insistem numas perguntas que não lhe dizem respeito. O cuidado de cada Creuza é assunto particular de cada gaúcho. Mas vou te dar uma opinião geral: na minha opinião manieta no tranco, é que vira o fio e faz a vaca ir pro brejo. O certo é aprender a conviver, na maioria das vezes é coisa pequena, não mais que um brinco na orelha. Muitas vezes é aqui entra o analista, pra apartá a peleia da Creuza com o resto do ego do vivente. E não é só ela, eu sustento que existe a porção Pedrão dentro de qualquer prenda. Pode ser a mais "sim senhor" e "com licença" das prenda e ela tem um Pedrão, que se não for domado, põe no cabresto o homem mais perto. Isso se o Pedrão dela já não tomou conta e se bandeou pros lado de ser Pedrão de outra prenda.
Mário Corso: Já que estamos no tema, como que o Sr. vê essa polêmica recente sobre se gaúcho de brinco pode ou não entrar em CTG?
Taurino Netto: Pessoalmente nunca usei, não uso e não usarei, se me virem de brinco pode me internar por que estou em surto psicótico. Agora, quanto aos outros, por mim tudo bem, é a sua porção Creuza se manifestando. Se quiserem podem até se vestir de prenda, mas tem uma coisa, depois não me vem reclamar...
E tem mais um porém, como eu só tenho uma dúvida no vestir, se é dia de bota ou de alpergatas, posso dizer: não é a pilcha que faz o gaúcho, senão qualquer mequetrefe poderia ser. O gaúcho é como uma faca, vale pelo fio, não pela bainha.
Mário Corso: Então lhe parece que o gaúcho tem um algo a mais, uma essência?
Taurino Netto: E como que não! Como Freud já dizia: Ein Gaucho zu sein ist eine Weltanschauung. (Ser um gaúcho é uma "pampavisão"). Olha esse mundo em reboldosa em que vivemos, e me diz se o alemão de Viena não tinha razão. É só entrevero e estrupício por todos lados. Nosso gaúcho é o único que não caiu do cavalo. Eu é que não saio do Passo Fundo.
Mário Corso: A que o Sr. atribui essa força do gaúcho?
Taurino Netto: Pois veja, penso que o gaúcho é um peleador também por causa do chimarrão. O mate é como a vida, é amargo mas a gente vai se acostumando até que fica bom e ainda clareia as idéia e as urina. Aliás, uma análise também é assim, o vivente tem que passar pelo momento amargo pra voltar a achar a vida doce. A vida é dura, como diz nosso filósofo passofundense Ernildo Pedroso: "o ser é uma faca sem cabo em que se perdeu a lâmina". Ou seja, no fundo somos coisica de nada, nosso destino é campear um sentido nesse grande pampa sem porteira e varrido pelo vento que é a vida.
Mário Corso: E porque o Sr. se chama de lacaniano?
Taurino Netto: Até que prum francês esse tal de Lacan sabia onde moravam as corujas. Vai muito do jeito, um analista sabe quando o outro é guapo e não se micha pra pega louco pelas guampa. E tem mais, pois não é que ele diz que: a mulher não existe. É o que eu sempre insisti, o que existe é a prenda.
Mário Corso: O que o senhor votou no plebiscito do desarmamento?
Taurino Netto: Votei pelo Sim. Gaúcho resolve as coisas na palavra. Apenas, se a coisa preteia é que se apela pro facão. Penso que revolver é coisa pra se apontar só contra castelhano.
Mário Corso: Dr. Taurino, para encerrar, uma pergunta já no estribo, como é que fica o gaúcho frente à globalização?
Taurino Netto: Cada dia melhor, é bom para nós, ou como é que de outro jeito vamos levar os ideais do Rio Grande mundo afora. Como o mundo vai nos tomar como modelo se não nos conhece? Nós já temos CTG no Japão, só vamos parar quando já tiver CTG de esquimó.
Publicado no Jornal Zero Hora, Caderno de Cultura, em 14 de janeiro de 2006.

sexta-feira, 10 de julho de 2009





AS CRIANÇAS E AS MEDICAÇÕES:
RITALINA OU RITA LEE?

Não trazemos aqui nenhuma novidade ao falar que cada vez mais que professores, orientadores pedagógicos e pais têm “aceitado” que as crianças que demonstram comportamento agitado, desatento devem receber alguma medicação psiquiátrica para “normatizar” este comportamento. Problemas como estes se apresentam de maneira muito comum, tanto a agitação das crianças como o imediatismo da não-reflexão sobre o sintoma ou dessa manifestação infantil e a suposta urgente medicação. Mas especificamente falamos daquilo que com o surgimento do DSM-III e classificou-se como TDAH, o chamado Transtorno do Déficit de Atenção por Hiperatividade. De maneira crítica o Psiquiatra Durval M. Nogueira Filho² pontua que as manifestações infantis, são hoje, perigosamente defendidas pela literatura biologiscista “A visão biologiscista, segundo a qual o usuário desse sistema é descaracterizado do seu contexto histórico, social e cultural, não tem respondido às reais necessidades para suas condições de vida e saúde” Trata-se este tipo de sintomatologia, além de uma grande dramatização, com o imediato uso de metilfenidato ( uma metanfetamina comumente e comercialmente conhecida como Ritalina) como se falássemos de função cerebral defeituosa. Dentro deste paradigma (ou sintoma social?) cegam-se as reais possibilidades e necessidades de entender, escutar um “Hiperativo” negando a ele uma condição mais humana saudável, contextualizado este indivíduo dentro de seu contexto histórico, social e familiar para apenas torná-lo um dependente químico e abortar suas possibilidades pela tarja diagnóstica que há de se levar para toda sua vida.
Segundo Steven Rose, neurocientista questiona de sua insuspeitada condição se esta seria mesmo, uma abordagem médico-psiquiátrica adequada a uma condição inequivocadamente patológica ou se ela seria um mero paliativo, com o objetivo de evitar algumas questões ou personagens deste conto “hiperativo”: A escola e seus desdobramentos e problemáticas; os pais e o contexto histórico social.
Fica claro a partir de um questionamento de um neurologista que há uma denúncia: estaria havendo um deslocamento de responsabilidades, da estrutura familiar, social e escolar, desvelando a possibilidade da falha da família e da escola que se ocultam por trás do cérebro “defeituoso”.
O intuito aqui não é encerrar a bioquímica ou conclamar um tribunal de júri, mas antes disso, e, bem menos isso conclamar os “imediatos” a uma reflexão que não se finda de uma maneira tão prática e ineficaz. Há por trás disso uma condição uma humana, possibilidades desta condição, capacidade de criação, a necessidade da reflexão a lembrança da liberdade e de suas expressões humanas, e indo uma pouco adiante, a vida humana com suas tristezas e alegrias não se sustenta somente em uma concepção biológica somente.
Mesmo apesar de todos alertas que são feitos esta “práxis-ritalina” (ver meu texto “medicalização” www.fabioulrich.com”) tem se tornado (um tornado) cada vez mais comum abortando e banalizando a condição humana.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Fotografia: Uma Janela da Alma.







Fotos: Evgen Bavcar - fotografo cego.

veja mais sobre fotografia no link abaixo.
http://www.youtube.com/watch?v=LVCM9DCK5Fs

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A ALMA SERIA UMA COISA?




Nesta situação, neste contexto histórico social, não surpreende que a psicanálise seja paulatinamente violentada pelo discurso tecnicista alegando sua ineficácia. Ineficácia?
Fraçoise Giroud declarou “A análise é árdua e faz sofrer. Mas quando a imagem que se tem de sim mesmo se está desmoronando sob o peso das palavras recalcadas, das condutas obrigatórias, das aparências a serem salvas, quando a imagem que se tem de si mesmo torna-se insuportável, o remédio é esse, guardo por Lacan uma gratidão infinita(..) não mais sentir vergonha de si mesmo é a realização de liberdade.Isso é o que uma psicanálise bem sucedida ou bem conduzida ensina aos que lhe pedem socorro”.
Mas, por que a psicanálise suscitaria tanto opróbrio?
A Psicanálise parece ser ainda mais atacada hoje em dia por haver conquistado o mundo através da singularidade de uma experiência subjetiva que coloca o inconsciente, a morte e a sexualidade no cerne da alma humana.
Acredito que a significação deste equivocado descrédito deva ser buscada na recente transformação dos modelos de pensamentos desenvolvidos pela psiquiatria dinâmica, nos quais repousa, há dois séculos, a apreensão do status da loucura e das doenças psíquicas nas sociedades ocidentais.
Esclarecendo, chama-se psiquiatria dinâmica os conjunto das correntes e escolas que associam uma descrição de doenças da alma (loucura) dos nervos (neurose) e do humor (melancolia) a uma tratamento psíquico de natureza dinâmica, melhor dizendo, que faça intervir uma relação transferencial entre o médico e o doente. Oriunda da medicina,a psiquiatria dinâmica privilegia a psicogênese (causalidade psíquica) em relação a organogênese (causalidade orgânica), mas no entanto sem excluir esta última, apoiando-se em quatro grande modelos de explicação da psique humana: um modelo nosográfico nascido da psiquiatria, que permite ao mesmo tempo uma classificação universal das doenças e uma classificação universal das doenças e uma definição da clínica em termos de norma e patologia um modelo terapêutico herdado dos antigos curandeiros que presume a eficácia terapêutica a um poder de sugestão.
No entanto, diante do impulso da psicofarmacologia, a psiquiatria abandonou o modelo nosográfico em prol de uma classificação de comportamentos. Reduziu a psicoterapia a uma técnica de supressão de sintomas. Percebemos então a valorização empírica e ateórica dos tratamentos de emergência. O medicamento sempre atende, seja qual for a duração da receita, a uma situação de crise, a um estado sintomático. Quer se trate de angústia, agitação, melancolia ou uma simples ansiedade. É preciso, inicialmente tratar o traço invisível de sua doença para depois suprimi-la. As modalidades medicamentosas utilizadas como única terapêutica e pelo discurso fálico das “receitas” orientam o paciente para uma posição ainda mais conflituosa e consequentemente depressiva. Em lugar das paixões, a normopatia; em lugar do desejo, ausência; em lugar do sujeito, o nada, em lugar da história, o fim da história. “ O moderno profissional de saúde – psicólogo, enfermeiro psiquiatra ou médico já não tem tempo para se ocupar da longa duração do psiquismo, por que na sociedade liberal depressiva seu tempo é contado”

O MAL ESTAR NA CONTEMPORANEIDADE



Um Breve comentário.


“Deus está morto. Marx está Morto. E eu, para falar a verdade, não me sinto muito bem"
(Woddy Allen)




Falemos um pouco então, daquilo que talvez, seja o mote central do contemporâneo: O Mal Estar.

O Mal Estar e o Mundo Contemporâneo.

Há um lugar para conceber que as pedras falam e que há a possibilidade de se entender o idioma inconversável delas . Mas para tanto há de ter poesis, há de ter criação. Freud quando apresenta as descobertas possibilitadas pelo emprego do método psicanalítico na observação e escuta dos sintomas histéricos, afirmou: "As Pedras Falam" . O produto da atividade neurótica, símbolos mnêmicos das atividades infantis recalcadas, são potencializados pôr uma linguagem que então, traduzida e decifrada, informa sobre experiências e acontecimentos do passado que testemunham sobre a origem da doença. A experiência psicanalítica que se funda no método da interpretação, que elucida os sentidos mais ocultos dos sintomas, configura-se como a "cura pela fala" que nos remete a pensar que tudo o que pensamos. Falamos e ao falar utilizamos uma linguagem que é composta de palavras, pois a “escrita é sempre a escrita de uma fala” [SAFOUAN]; o inconsciente se estrutura como uma linguagem solicitando como uma condição operacional, a inscrição de eventos no inconsciente, melhor dizendo, no registro das representações.

“Aonde não há poesis, pedras passam por pedras mesmo. O terreno, por conseguinte não é propicio à descoberta de objetos marcados por inscrições codificadas" (Lowenkron )

Dentro desta perspectiva, o terreno não seria propicio à descoberta de objetos marcados por inscrições e passíveis de tradução. Na verdade, a psicanálise, desde sempre facultou esta possibilidade, testemunhada na formação das "neuroses atuais". Falemos, então, de estados neuróticos desprovidos de atividade criadora, impossibilitados de realizar a passagem da intensidade pulsional para o registro da interpretação. Esclarecendo, das dificuldades encontradas pelo sujeito para a simbolização, melhor dizendo, para efetuar o processo de simbolização, surgem os sintomas que, supostamente, não são portadores de sentido. Seriam sintomas que não falam, mas explicitam perturbações de economia sexual somática. Tal economia exerceria um conhecimento não pensado, não inscrito no registro da representação. Neste processo, ocorrem manifestações que são sentidas, percebidas como um Mal-Estar que não encontra definição que, muitas vezes não se localiza. Um Mal Estar Indizível. Essas categorias clínicas demarcam fortes limites ã clínica psicanalítica, tal como se apresenta e se pensa fundamentalmente na clínica baseada do recalque.

As questões seriam: sobre quais diferenças estamos falando, quando e por que elas acontecem? Bion diz que talvez encontremos mais "Hamlets" do que "Édipos". Roudinesco afirma que "Os pacientes dos anos 90 são muito diferentes daqueles dos primeiros tempos" e continua a autora, que cada um de nós não cessa de confirmar na própria experiência.


Penso que as questões colocadas até agora, não são nenhuma novidade para quem nos ouve, neste momento, muito antes pelo contrário, também refletem e sentem o mal estar com o qual se deparam quotidianamente. Com tais questões e, concordam os psicanalistas, sejam quais forem suas premissas ou tradições de pensamento psicanalítico que, existem mudanças importantes na economia psíquica do homem contemporâneo.

Falando de sofrimento psíquico na atualidade, destacam-se os chamados transtornos depressivos, que se caracterizam por sentimento de um vazio interior, redução de auto-estima, falta de identidade, empobrecimento da experiência subjetiva e criativa, somatizações graves, as toxicomanias e os modos perversos de existência.


“As pessoas que vêm consultar-nos, começam geralmente por relatar uma depressão, maior ou menor, uma dificuldade de viver, uma incapacidade para fazer as coisas mais simples. Nas entrevistas, por vezes reconhecemos o que classicamente conota a depressão: abatimento, inibição do pensamento, sentimento de vazio, cansaço, apatia, impossibilidade de amar, impotência ou frigidez, sentimento de inferioridade, de inadaptação ou ausência de valor" CHEMAMA,R

Não se pretende, aqui, uma revisão teórica, mas sim, evidenciar uma coalizão de pensamentos psicanalíticos acerca do sofrimento psíquico que se apresenta no mundo contemporâneo, os desafios da clínica psicanalítica que, por sua vez tem seu setting redimensionado por sofrimentos e sujeitos que se manifestam sob a forma de sintomas narcísicos, depressivos, com dificuldade de articular narrativas, suas próprias histórias, suas experiências, amores e dores.
Além da marca deste discurso há uma solicitação imediata da remissão deste quadro, o alívio rápido, e a dificuldade de aceitar um trabalho sistemático e regular que a psicanálise solicita.

ROUDINESCO afirma que a depressão deveria ser pensada muito mais como um avatar do que propriamente como uma entidade autônoma. ROUDINESCO enfatiza que a histeria, evidentemente não desapareceu, no entanto ela está sendo cada vez mais tratada e vivida como uma depressão. O modo depressivo então, de sofrimento guarda conformidade com o que se chama de sociedade depressiva, na qual então, se instaura, e o paradigma da histeria é "substituído pelo da depressão" .

No entanto a categoria denominada como depressão (cabendo distingui-la da melancolia) atualmente ampara-se fortemente no discurso psiquiátrico e seus ideais fálicos, já evidenciados por MICHEL FOUCAULT em sua obra “A Micro-Física do Poder" que, por sua vez trabalha com um método empírico experimental, produzindo, conseqüentemente um campo fecundo de pesquisa para psicofarmacologia, para neurociências e outras disciplinas que operam num contexto de pensamento notoriamente não-neutro, tratando os transtornos depressivos como anomalias, mal funcionamento cerebral, cujo o comportamento possa vir a ser corrigido por meio de medicamentos, tornando dispensável a busca de sentido para os sintomas.